domingo, 18 de abril de 2010

as inadequações de Michel de Montaigne.


Montaigne nasceu em 1533, viveu no alto de uma colina no coração da França a 50 km de Bordeaux, pertenceu a nobreza , foi advogado , amigo do rei da França e duas vezes prefeito de Bordeaux. Aos 38 anos, decidiu se recolher ao castelo e passar o resto da vida recluso , lendo , refletindo e escrevendo. Ele é um filosofo atípico e cativante por uma razão principal: ele compreende o que faz se sentir mal consigo mesmo, este escreveu um livro que aborda três tipos principais de inadequação.
A primeira que é a INADEQUEÇÃO FÍSICA, que seria o seu sentimento de desconforto com relação ao próprio corpo. Um exemplo que ele cita são os animais, porque eles ficam mais a vontade com o corpo deles, que eles não tem constrangimentos, pudores, vergonhas e a repulsa por nossa corporalidade que nós seres humanos temos, achando que somos gordos , brutos e desajeitados demais. Ele não nos igualava aos animais para nos diminuir, e sim para fazer com que nos aceitássemos melhor. Ele dizia que deveríamos aceitar também nosso corpo com uma pitada de humor, tão naturalmente quanto os animais fazem.
A segunda é a INADEQUAÇÃO experimentada quando somos julgados ao termos nossos hábitos e costumes desaprovados. Ele cita que cada sociedade tem seus parâmetros do que é normal do que são roupas, comidas ou conversas normais, quem foge desses parâmetros está sujeito a ser alvo de julgamentos e preconceitos a ser visto como “esquisito”, virar alvo de chacota ou coisa pior. Para não ser alvo do preconceito alheio, Montaigne dizia que devíamos viajar parar conhecer novas culturas, fisicamente ou mentalmente. Cada país tem seu preconceito, mas viajar de um país a outro relativiza os preconceitos individuais do viajante, ele não afirmava que todas as culturas são boas, ele só criticava a forma como as pessoas decidem o que é bom ou ruim com base no hábito mais do que a razão.
E por fim a INADEQUAÇÃO INTELECTUAL, o sentimento de que somos pouco sagazes. Montaigne diz que esse é um campo que nos faz sofrer, que é a sensação de não sermos tão sagazes quanto deveríamos. Na época de Montaigne, era preciso ter alguns requisitos para ser visto como inteligente, para ele na sociedade da época, a maior parte dos graduados apesar das becas e dos diplomas, eram um “bando de tapados”, isso não era por recalque, mas apenas para mostrar que símbolos da inteligência, muitas vezes, não querem dizer nada. Para ele o tipo de inteligência que importava era a “sabedoria”, ele diz que uma pessoa pode ser sábia sem jamais ter freqüentado uma universidade, só bastaria ter humildade, modéstia e aceitar as próprias limitações intelectuais. Montaigne conhecia muitos lavradores, pessoas sem nenhuma instrução formal, no contato com eles ele percebeu que muitos tinham mais sabedoria do que a dos universitários. O estudo jamais seria inútil, mas observa que muitos universitários não se tornam mais felizes ou mais sábios que as outras pessoas.
Temas que não são debatidos nas universidades que Montaigne achava que deveriam ser citados, eram assuntos como à boa convivência com os outros, como combater a ansiedade, como lidar com a morte, e até mesmo assuntos banais, como a forma de terminar uma relação. Ele reconhecia que há pessoas mais sagazes do que outras, mas dizia que a maneira como elas são classificadas é que está errada, assim como nosso sistema de avaliação escolar que recompensa a coisa errada: o aprendizado em vez da sabedoria. O sistema educacional, como o da França de Montaigne, faz muita gente se sentir burro quando não é, enquanto deixam outras pessoas se achando muito espertas embora não sejam. Ele não queria eliminar a distinção entre a inteligência e a estupidez só pretendia corrigir a forma como a definimos. Montaigne comparava que uma pessoa podia ser capaz de elaborar um texto brilhante, recordar muitos fatos e apresentar argumentos coerentes sem que seja sábio, da mesma maneira como outro individuo pode não ter essas habilidades e ainda ser muito mais sábio. Se nada disso resolver nossa sensação de inadequação intelectual, Montaigne tem uma última sugestão: que imaginemos a pessoa no vaso sanitário, Afinal “mesmo no mais alto dos tronos, todos têm de usar o traseiro para sentar”. Montaigne convidava-nos a não nos sentirmos humilhados por nenhum aspecto daquilo que somos, nossos corpos ou idiossincrasias, ou pela falta de instrução formal. Podemos soltar gases, comer focinhos de porco, nunca ler um livro na vida, e ainda assim, ser perfeitamente humano.
A conclusão é que as qualificações acadêmicas não são a única nem a principal medida da inteligência de alguém, e que há formas de sagacidade que as universidades não sabem reconhecer, da mesma maneira como há formas de estupidez.

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